Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de dezembro, 2025

Serasa - Ato 03

 — Me conte quando isso começou. — Oq? — Esse namoro. — Não to namorando. — Como não tá? E a foto lá? — Não quer dizer nada. Você namora com todo cara que posta foto? — Então você fica com quem quiser? — Não. — Então é namoro. — É combinado, bem diferente. — Você não é namorado e não pode ficar com ninguém? — Poder eu até posso, mas não quero e combinado é assim. — E ela vai fazer isso por lá? — Não sei, ué. — Quem te garante? — Preciso de garantia não, olha. Cada um faz o seu. — Tá estranha essa história. — Estranha eu concordo. — Porra. Quero conhecer a heroína. — Você me disse. Ligou várias vezes no dia que eu tava lá. Lembra não? — Lembro, Jesus! Que vergonha. — Eu na casa dela e você pedindo o endereço. Depois pediu pra ir dormir na pousada porque o pessoal ia embora cedo. Só fui saber que era mentira quando cheguei lá. Maior crocodila. E ainda me tratou com muxoxo. Fred disse que você ia bater no Carvalheira. — Desculpa. Bebi demais. — Tu mandou msg pra Bruno perguntando se e...

torto

"não era pra você ter ido" Foi o que me disse na ligação às 04:28 da manhã de uma segunda-feira de setembro. Ri e achei que era brincadeira, até que ficou com um sorriso sem graça e colocou a palma da mão na boca com os dedos virados pra bochecha. O cabelo preto ainda molhado caiu na direção oposta, inclinando pra frente e cobrindo parte do rosto. "coloca o cabelo atrás da orelha, não to te vendo" Piscou os olhos longamente e suspirou. Tirou a mão do rosto e ajeitou o cabelo enquanto se curvava pra trás na cadeira. Não minto que não entendi o que tinha rolado. Ficamos em silêncio por um tempo, ela olhando pro lado como se não quisesse continuar a conversa. Espreguiçou na minha frente e tive a impressão que diria alguma coisa, mas não disse, nem perguntei prontamente. Achei que deveria dizer alguma coisa, mudar o assunto, quebrar o gelo, fazer uma piada, mas só saiu a obviedade: "que horas são aí?" "quatro horas a mais" "vou contar nos dedos...

Serasa - Ato 02

 — Me conta direito. Porque não quis me ver quando voltei. — Percebi que seria difícil te ver. Tive medo de bater a bad. — Mas não era esse o combinado, Diego? Eu voltava e a gente conversava? — Foi, mas não rolou né? — Foi muito rápido. — Rápido como? — Uns dias antes de viajar, passei o fds inteiro com você. Te pedi expressamente pra esperar. — 15 dias antes. — Uma semana depois, exatamente uma semana, mandou que eu aproveitasse todas as experiências.  — Não era justo com você, né? Ia conhecer um monte de gente nova. — Sei o que é melhor pra mim, viu? Meu pai mora em Salvador. — Eu sei. Por isso decidi por você. — Sou adulta. — A gente não tava namorando, nem tinha compromisso. Não dava pra criar expectativa pra quatro meses na frente. Preferi deixar você curtir suas picas lá. — Eu curti muito. Foi ótimo. — Viu aí? — Mas não teve nada com você.  — Imagino que não. Mas me antecipei. — Antecipou ou conheceu a menina lá ? — Conheci depois. — Ela sabe de mim? — O que tem pr...

cá entre nós

Lembrei daquele dia, depois da praia de maré sequinha. Chegamos em casa com uma caixinha de cerveja comprada no posto na esquina de casa. Você escolheu, e reclamou que não tava nem quente nem gelada. Coloquei no freezer e você 'Deusa do Amor' de Pepeu Gomes pra tocar, dançou sozinha entre a sala e a cozinha, com a saída de praia branca fininha e curtinha, só de biquini por baixo. Me convidou pra ir junto com os dedinhos, sorrindo sacana com as covinhas. Fiz que não ia, até você levantar o tecido acima da coxa, enquanto arriscava algum passo entre a salsa e o mambo.  Ainda era dia, fomos pra varanda vê-lo ir. Seus braços no meu pescoço, e eu sentindo o cheiro de sal com protetor solar misturado a algum creme de cabelo chique. Te falei que adorava o cheiro de Kolene e me mandou tomar no cu sem qualquer cerimônia. Dançamos sem dançar, um pra lá, dois pra cá, enquanto te olhava bronzeada e sorrindo de olhos miúdos. Puxei a alça do biquini pra ver a marquinha que o sol deixara, e qu...

Serasa - Ato 01

 — Faz um tempinho que a gente não conversa né? —  Conversar mesmo acho que só antes de sua viagem. Nem perguntei como foi a experiência lá. — Vixe, outro mundo, viu? — Verdade que lá parece o centro de Maceió? — Muito. kkkk. Eles tem até o ceguinho do pandeiro, mas ele canta David Bowie pra cima. Te mandei o vídeo até, você não viu? — Oxe, mandou onde? — No Instagram. — Porra! Acho que não vi. — Devo ter ainda. Vou te mostrar. — Achei que era piada. — Né igual o ceguinho do centro? Mas com gaita e violão. — Pois mande pra mim. Fiquei fã. — Mando. — Conte mais. Fez muita amizade por lá? — Muitas. Principalmente com a turma de fora. Um amigo de lá vem pra cá na semana santa. Vamos lá pra Salvador ver meus pais e minha sobrinha. — Também tô pensando em ir pra lá. Tava olhando passagem hoje. — Eita que massa! Vamos tentar fazer alguma coisa lá, né? — Ainda não tá certo não. — Sim, no plano das ideias a gente já coloca na programação. — Joia, vamos amadurecer. — Vai com quem? — Ch...

Retórica dos namorados

Quis o destino que naquela noite, desembrulhasse o filé, fatiasse o pimentão amarelo e descascasse alho pra preparar o jantar solitário do início de semana. Também foi o destino que, abrindo o armário pra alcançar a páprica, enxergou um vinho esquecido atrás da air fryer e do quente-frio que usa pro café quando tem visita.  - Coloca no congelador dez minutinhos - sussurrou o destino - Tô tomando antibiótico, porra.  - Besteira. Uma ou duas tacinhas não vão te fazer mal. Vinho na taça, filé na frigideira. Tomilho, endro, alho e pimenta do reino. Episódio do podcast da Ilustríssima que tenta explicar o crescimento evangélico no país. Os filés mudam de lado. Determinou, no início da segunda taça, o destino - esse grande sacana - que no tempo de cocção dos versos, que olhasse o Instagram. - Olha, deve ter receita nova. Obediente e resignado, apoiado no balcão de mármore, cumprimento a felicidade plena e inalcançável que reina naquela rede. Duas propagandas de consórcio, uma de ac...