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Serasa - Ato 04

 — Então vamos mudar os planos. — Como assim? — Putaria é putaria. — Sei separar as coisas. — Não vamo arriscar, blz? — Hoje é só putaria. — Deixe isso pra lá. Vai complicar tudo. — Tá, você que sabe. — Vou dar uma desculpa pra ir embora. — Certo. — Não fica brava. — Não to. — Gosto de você. — Você não gosta de ninguém, cara. — Eu sou doentinho, você sabe. — Só gosta de quem lhe trata mal. — Você tá me tratando mal, por isso gosto ainda mais de você. — Não tem graça. — Sério. Eu gosto de você. Por isso evitei te ver. — Que caô — Não preciso que acredite em nada. — Porque nunca disse? — Não sou bom com essas coisas....  — Resolve tua vida. — Tô resolvendo. — Não seja sacana com a menina lá. — Não sou. — Mas tava saindo quase agora pra me comer. — Voltei atrás a tempo.  — Por causa dela? — Ela é boa quando tô com ela. E terrível quando tá longe. — Você tá namorando? Seja sincero. — Não e não quero. — Então porque a gente não retoma? — Preciso resolver esse lance primeiro. —...

Confins

Você só era uma cabeçuda gostosa com a boca grande. Boca grande tanto literalmente, quanto pela total ausência de desconforto pra cessar incômodos. Na primeira vez, te achei pedante com seus conceitos freudianos misturados com a filosofia que, depois, soube que se interessou por influência paterna. Mas na época, vi que analisava as conversas de todo mundo na mesa com esses olhos lindos cor de cumaru e seu deboche que no início, confundi com muxoxo. A gente não conversou muito de primeira por conta desses detalhes preliminares. Depois, soube que me achou observador, bem humorado e que apesar de não fazer seu tipo, tinha elogiado meu cheiro pra pessoa que me contou, e que revelarei no leito de morte. Prometi não contar, e você, com essa bocarra, falou pra um monte de mulher no banheiro e nem imagina quem tenha dito. Isso deve ser foda pra sua mania de controlar cada aspecto de sua vida, mas pra mim não deixa de ser engraçado. Engraçado também que no meio de toda a conversa generalizada, ...

Serasa - Ato 03

 — Me conte quando isso começou. — Oq? — Esse namoro. — Não to namorando. — Como não tá? E a foto lá? — Não quer dizer nada. Você namora com todo cara que posta foto? — Então você fica com quem quiser? — Não. — Então é namoro. — É combinado, bem diferente. — Você não é namorado e não pode ficar com ninguém? — Poder eu até posso, mas não quero e combinado é assim. — E ela vai fazer isso por lá? — Não sei, ué. — Quem te garante? — Preciso de garantia não, olha. Cada um faz o seu. — Tá estranha essa história. — Estranha eu concordo. — Porra. Quero conhecer a heroína. — Você me disse. Ligou várias vezes no dia que eu tava lá. Lembra não? — Lembro, Jesus! Que vergonha. — Eu na casa dela e você pedindo o endereço. Depois pediu pra ir dormir na pousada porque o pessoal ia embora cedo. Só fui saber que era mentira quando cheguei lá. Maior crocodila. E ainda me tratou com muxoxo. Fred disse que você ia bater no Carvalheira. — Desculpa. Bebi demais. — Tu mandou msg pra Bruno perguntando se e...

torto

"não era pra você ter ido" Foi o que me disse na ligação às 04:28 da manhã de uma segunda-feira de setembro. Ri e achei que era brincadeira, até que ficou com um sorriso sem graça e colocou a palma da mão na boca com os dedos virados pra bochecha. O cabelo preto ainda molhado caiu na direção oposta, inclinando pra frente e cobrindo parte do rosto. "coloca o cabelo atrás da orelha, não to te vendo" Piscou os olhos longamente e suspirou. Tirou a mão do rosto e ajeitou o cabelo enquanto se curvava pra trás na cadeira. Não minto que não entendi o que tinha rolado. Ficamos em silêncio por um tempo, ela olhando pro lado como se não quisesse continuar a conversa. Espreguiçou na minha frente e tive a impressão que diria alguma coisa, mas não disse, nem perguntei prontamente. Achei que deveria dizer alguma coisa, mudar o assunto, quebrar o gelo, fazer uma piada, mas só saiu a obviedade: "que horas são aí?" "quatro horas a mais" "vou contar nos dedos...

Serasa - Ato 02

 — Me conta direito. Porque não quis me ver quando voltei. — Percebi que seria difícil te ver. Tive medo de bater a bad. — Mas não era esse o combinado, Diego? Eu voltava e a gente conversava? — Foi, mas não rolou né? — Foi muito rápido. — Rápido como? — Uns dias antes de viajar, passei o fds inteiro com você. Te pedi expressamente pra esperar. — 15 dias antes. — Uma semana depois, exatamente uma semana, mandou que eu aproveitasse todas as experiências.  — Não era justo com você, né? Ia conhecer um monte de gente nova. — Sei o que é melhor pra mim, viu? Meu pai mora em Salvador. — Eu sei. Por isso decidi por você. — Sou adulta. — A gente não tava namorando, nem tinha compromisso. Não dava pra criar expectativa pra quatro meses na frente. Preferi deixar você curtir suas picas lá. — Eu curti muito. Foi ótimo. — Viu aí? — Mas não teve nada com você.  — Imagino que não. Mas me antecipei. — Antecipou ou conheceu a menina lá ? — Conheci depois. — Ela sabe de mim? — O que tem pr...

cá entre nós

Lembrei daquele dia, depois da praia de maré sequinha. Chegamos em casa com uma caixinha de cerveja comprada no posto na esquina de casa. Você escolheu, e reclamou que não tava nem quente nem gelada. Coloquei no freezer e você 'Deusa do Amor' de Pepeu Gomes pra tocar, dançou sozinha entre a sala e a cozinha, com a saída de praia branca fininha e curtinha, só de biquini por baixo. Me convidou pra ir junto com os dedinhos, sorrindo sacana com as covinhas. Fiz que não ia, até você levantar o tecido acima da coxa, enquanto arriscava algum passo entre a salsa e o mambo.  Ainda era dia, fomos pra varanda vê-lo ir. Seus braços no meu pescoço, e eu sentindo o cheiro de sal com protetor solar misturado a algum creme de cabelo chique. Te falei que adorava o cheiro de Kolene e me mandou tomar no cu sem qualquer cerimônia. Dançamos sem dançar, um pra lá, dois pra cá, enquanto te olhava bronzeada e sorrindo de olhos miúdos. Puxei a alça do biquini pra ver a marquinha que o sol deixara, e qu...

Serasa - Ato 01

 — Faz um tempinho que a gente não conversa né? —  Conversar mesmo acho que só antes de sua viagem. Nem perguntei como foi a experiência lá. — Vixe, outro mundo, viu? — Verdade que lá parece o centro de Maceió? — Muito. kkkk. Eles tem até o ceguinho do pandeiro, mas ele canta David Bowie pra cima. Te mandei o vídeo até, você não viu? — Oxe, mandou onde? — No Instagram. — Porra! Acho que não vi. — Devo ter ainda. Vou te mostrar. — Achei que era piada. — Né igual o ceguinho do centro? Mas com gaita e violão. — Pois mande pra mim. Fiquei fã. — Mando. — Conte mais. Fez muita amizade por lá? — Muitas. Principalmente com a turma de fora. Um amigo de lá vem pra cá na semana santa. Vamos lá pra Salvador ver meus pais e minha sobrinha. — Também tô pensando em ir pra lá. Tava olhando passagem hoje. — Eita que massa! Vamos tentar fazer alguma coisa lá, né? — Ainda não tá certo não. — Sim, no plano das ideias a gente já coloca na programação. — Joia, vamos amadurecer. — Vai com quem? — Ch...