Três da manhã, janela entreaberta, cortina tremulando com o vento frio da madrugada, a luz da cidade entrando no quarto, tímida, iluminando em frestas o teto do quarto escuro.
- Sua bunda fica muito linda à meia luz. Parece uma música de Guilherme Arantes.
Levantou a cabeça do meu peito e me beijou sorrindo. Segurei a bunda com a mão direita e apertei com força comedida. Tirou o cabelo do rosto e deitou de novo, puxando o lençol até cobrir o quadril, encerrando o espetáculo cor de jambo que me entretinha. Ficou em silêncio deslizando o dedo na minha coxa, como se calculasse uma raiz de três ou o caminho mais curto pra ir de A pra B. Também fiquei calado, com medo de uma nova conversa difícil, mas era inevitável. Comecei um cafuné ajeitando o cabelo atrás da orelha diversas vezes.
- Tu me fala a verdade? - perguntou sem se mexer.
- Diga.
- Preciso que me fale a verdade.
- Te falo, pergunte.
- Tá com mais alguém?
- Se estou ficando com mais alguém?
- Sim.
A noite tinha começado boa. Me escreveu perto das 17:00h dizendo que tava louca por um churrasquinho e uma cerveja, que queria só calçar uma sandália de dedo e tomar um banho de cabeça. Falei que às sete passaria na casa dela pra meu filho não nascer com cara de desejo não atendido. Ela ficou genuinamente feliz e isso me animou. Tava cansado, ainda dependendo de muleta, mas um churrasquinho não dava pra inventar desculpas.
Cheguei no horário e a vi pelo vidro da porta do prédio. Deu duas batidinhas com o chaveiro e o porteiro abriu: um vestidinho de alça, cabelos molhados, sandálias e uma malinha na mão.
Abri o vidro e perguntei "vai dormir comigo, é?".
Um sorriso sem graça de resposta.
"É Natal?".
"Você não me chamou mas eu vou".
"E precisa chamar?".
Comeu três churrasquinhos e me acompanhou na cerveja. Foram 3 ou 6, não lembro. Justificou que não tinha comido nada o dia todo, eu impliquei que aquela fome era pq ela tinha progredido pro semiaberto. Colocou os pés em cima de mim e fiquei apertando ora as batatinhas, ora os dedinhos.
"Tava precisando disso".
Nenhum assunto complicado, nenhum B.O. pra resolver.
- A gente nunca falou nada sobre isso.
- Mas quero saber.
- Eu digo, mas quero saber se a gente fecha nossa conta antes.
- Diga
- A gente fica junto hoje, a partir de agora, 03:23 da manhã de 12 de outubro.
- Me fala.
- Tudo meio cinza, né?
- Tem ou não tem?
- Teve, não tem mais.
- Teve quando?
- Semana passada.
- Eu conheço?
- Não.
- Onde foi?
- Na casa dela.
- E só foi essa?
- Recente, sim.
- Desde que a gente tá junto?
- A gente tá junto desde as 03:23
- Você entendeu.
- Teve.
- Quem?
- Uma menina do trabalho, você não conhece.
- A que era sua cliente?
- Sim.
- Baixo astral.
- A gente não tinha nenhum acerto.
- Nem vai ter.
- Tudo bem, só falei a verdade.
- E pq não disse antes?
- Pq se a gente tivesse junto, não teria rolado. E vc não perguntou.
- Já tava com vontade de perguntar isso. Foi bom saber.
- Tá bem.
- Vou descobrir mais coisas?
- Oq quer saber?
- Sei lá, oq tiver pra contar.
- Pergunte que eu respondo.
- A sonsa lá?
- Vixi, qual?
- A gorda.
- Nada a ver.
- Desde quando.
- São João.
- Certeza?
- Sim, certeza.
- Tu não foi mais lá?
- São Pedro.
- São João ou São Pedro?
- São Pedro, eu acho.
- E contato?
- Zero.
- Certeza?
- 100%.
- Tá.
- E a gente?
- O que tem?
- Tá combinado agora?
- Tô com raiva.
- Eu não te pergunto pq não sei se vou querer a resposta. Você pediu e agora decide o que vai fazer.
- Eu sei, mas fiquei puta.
- A gente pode ficar numa boa, jogando aberto.
- Não sei...
- Amanhã a gente pega Joca, toma um café, vai pra rua fechada, depois vem pra cá pra ver um filminho.
- Queria ir na praia.
- A gente vai, meu amor. Coloque seu biquini do Brasil.
- Peça pra suas putas.
- Só tenho você agora.
Mordeu meu peito, ficaram as marcas dos dentes lindos clareados por algum especialista em estética. Levantou a cabeça, me olhou firme de pertinho. A cara amassada e o bico do peito nu colado em mim, segurou meu queixo com força e disse com tom definitivo:
- Eu corto seu pau, viu?
- Tu tá ligada que pra mim você é mulher mais gostosa do mundo, né?
- Ah, é?
- Até sob forte ameaça, estou doido pra te comer de novo.
- Hoje vai na mão mesmo.
- Duvido.
- Tu vai ver.
Pronto, Obrigado e Bom dia.
Comentários