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1.12.25

Retórica dos namorados

Quis o destino que naquela noite, desembrulhasse o filé, fatiasse o pimentão amarelo e descascasse alho pra preparar o jantar solitário do início de semana. Também foi o destino que, abrindo o armário pra alcançar a páprica, enxergou um vinho esquecido atrás da air fryer e do quente-frio que usa pro café quando tem visita. 

- Coloca no congelador dez minutinhos - sussurrou o destino

- Tô tomando antibiótico, porra. 

- Besteira. Uma ou duas tacinhas não vão te fazer mal.


Vinho na taça, filé na frigideira. Tomilho, endro, alho e pimenta do reino. Episódio do podcast da Ilustríssima que tenta explicar o crescimento evangélico no país. Os filés mudam de lado. Determinou, no início da segunda taça, o destino - esse grande sacana - que no tempo de cocção dos versos, que olhasse o Instagram.


- Olha, deve ter receita nova.


Obediente e resignado, apoiado no balcão de mármore, cumprimento a felicidade plena e inalcançável que reina naquela rede. Duas propagandas de consórcio, uma de achadinhos para casa de rico sendo pobre, uma receita de parmegiana de beringela, e enfim, um novo casal.

Engoliu o vinho e apertou na tela pra ver pausado.

Música de nós dois, três ou quatro conhecidos, um samba de segunda-feira. Um rapaz sorridente e simpático com uma das mãos repousando no joelho. 

Ela sorria também.

Mandou o destino que eu curtisse e comentasse, tal como se ordena a nova ordem social.

"parabéns, felicidades ao novel casal"

Minutos depois recebo uma resposta indigesta, tal como o filé esquecido no fogo será amanhã:

"até pra recalcado você é insuportável. Mas, obrigada"

Não satisfeito com a crítica, respondi com a firmeza de quem não deveria se importar:

"namorado é?"

Vitoriosa, me ofereceu um corta-luz.

"conhecendo ainda."

De frente à derrota, devolvi um joinha com um comentário sagaz:

"queimei meu filé por causa dessa caralha de foto"

Recebi de pronto:

"Que pena, Diego! Sinto muito pelo seu jantar!"

Acostumado com a fluidez das palavras, entendi que ali iniciava-se uma nova fase na batalha entre nós. Percebi que o sentimento que acostumara virara provocação, talvez pior, indiferença. Temeroso com a derrota iminente, ameacei com fanfarronice:


"to indo aí"

"venha"

"bombar, né?"

"ele mesmo"

"tu vem conversar comigo?"

"oxe, vc vem pq quer"

"deixe dessa"

"quer q eu perca minha noite conversando besteira?"

"teu boy não deixa não, é?" - apelei

"ele não tem que deixar nada não. Eu que não quero nem vou perder meu tempo com você"

"faz assim não"

"já perdi meu tempo, e agora to vivendo. tá na hora de você assumir suas escolhas"

"eu assumo minhas picas"

"pois assuma e fique aí com seu filé queimado"

"deixe dessa que tu não é assim"

"nem to brincando, viu?"

"nem eu"

"passou, Diego." 

"tá bem."

"preciso viver minha vida."

"eu sei, desculpa"

"então pq não deixa?"

"aguentei ver não"

"me silencie de tudo que nem eu fiz com vc"

"ta bem"

"e outra: cê não é menino mais não, viu?"

"eu sei, tem razão"

"não falo nada com vc, então não fale comigo tb"

"tem razão, tem razão"

"to aqui tentando e vc não me deixa, porra"

"ué, já não tinha passado?"

"sim, passou"

"tive a impressão que não"

"me poupe. disse o que queria dizer"

"eu sei"

"mais alguma coisa?"

"venha pra cá, venha"

"vc ta de brincadeira, né?"

"venha. vamo assistir black mirror"

"Diego, me poupe"

"divido meu filé queimado contigo"

"Quero não, viu"

"fiz aquela salada de grão de bico com pepino fininho e pimentão amarelo"

"kkkk essa eu adoro, mas não vou não."

"se misturar, nem da pra sentir o gosto de fuligem do filé"

"para, pfv"

"venha, minha camisa da Fender não tá legal sem você"

"vou aproveitar com meus amigos aqui, viu? beijos"

"ta bem"


Preparou o prato com o filé queimado, guardou a salada na geladeira. Encheu a taça de vinho e sentou à mesa resignado. Pensou na samba, ali pertinho, sabia que não iria, e que precisava deixa-la seguir a vida. Lembrou dos passinhos de axé music, do jeito que acordava se esfregando querendo fuder e de como logo depois perguntava "cadê meu café da manhã?"

E eu fazia: ovos mexidos, torradas, suco do que tivesse. Às vezes um cuscuz. Teve um dia que fizemos uma moqueca de camarão e ganhei uma guia de oxum pra me proteger. Comemos tanto que não rolava transar e ficamos assistindo o filme de domingo na globo entre um cochilo e outro, pq a internet tava fora do ar. Lembrei também que ela gostava de trazer comida numa sacola retornável do Mix Mateus e eu perguntava se era cesta básica. E que num dia que estacionou na minha vaga, com roupa de academia e tudo, quando me viu, ergueu a sacola pro alto e gritou " chegou a cesta básica, ê! "...e quando cheguei pertinho me beijou e disse :

"vai ter que me comer muito pra pagar essa cesta. é do palato"

E a gente vivia assim de sexta a domingo. Ela fumava um baseado no sofá, à meia-luz, nua no meu colo, me falando coisas da vida e sem entender pq eu não era com ela o que ela era comigo. 

"(...) pq você parece que só quer me comer"

"eu gosto muito de te comer"

"mas se for só me comer, quero não"

"tem mais coisa envolvida"

"e é o que então?"

"te comer e ver você dançando axé "


Ela ria e me olhava com cara de que tava tudo bem. Entre cestas básicas e coreografias, a gente se divertia com a leveza das mensagens, como o dia em que fui buscá-la no trabalho pq tava sem carro e ela ficou com os olhos cheios de lágrima pq teve um dia difícil, e no final me falou que achava que era só TPM. Ou quando a gente teve que ir num evento separado, bebi demais e perguntei na frente de todo mundo se ela queria assistir o especial das Ilhas Maurício no Globo Repórter. Ela disse "sai daí", mas veio dormir comigo e só foi embora terça-feira à noite. Lembrei também, não sem uma grande dose de saudade, quando assistimos o jogo do Bahia na casa dela, e ela fez de tudo pra me aproximar do pai dela. E eu, sem graça, meio por fora até a sexta cerveja, pra depois ficarmos, eu e o pai dela, cantando Raul Seixas e Paulo Diniz enquanto ela batucava no sofá. 

Nesse dia me disse que queria que a gente ficasse junto, junto mesmo, no outro, culpou a bebida. 

Pediu desculpas e eu não contestei. 

Até agora.

Eu também queria. Mas tinha sua viagem no meio e o tempo é meio foda, né? Tô te falando isso porque não sou dono da razão nem do tempo. Você me perguntou se era só te comer e nunca foi. Você era minha melhor companhia. Acordava sorrindo com suas mensagens fitness às cinco, achava o máximo o quanto sua presença enchia minha vida de alegria, e como pulava no meu colo depois de uns dias sem se ver. Mais ainda quando me perguntava se almocei e eu respondia, muitas vezes de propósito, que tava procurando alguma coisa gostosa pra comer, você sempre mandava uma selfie apontado pra você. 

Achava o máximo, apesar do clichê.

Quis o destino que você fosse. E eu entendo.

Eu, minha camisa velha da Fender, meu sofá que arranhava suas costas, minha bancada de mármore fria que a gente usava sempre que dava vontade para fins não recomendados pelo fabricante, nossas ligações intermináveis, o cheiro que você deixava na minha camisa, meu café da manhã e minhas cestas básicas aos fins de semana, sentiremos saudades.


Pronto, obrigado e bom dia.



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