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eterno retorno

Me convidou pro carnaval, respondi que não tava no clima esse ano, que preferia ler meus livros inacabados, ressuscitar minhas plantas que morreram em novembro, testar minhas receitas salvas no instagram. Me disse que ia, que adora carnaval, pintar a cara, vestir fantasia, pular na pipoca. Eu disse vá e disse aproveite.  Botou cara feia, ficou quieta, não disse nada. Imagino que queria que eu perguntasse se tava tudo bem, mas não perguntei. Ficamos no sofá, olhando pra tv com metade do display piscando pq não tive tempo nem energia pra levar no conserto. O vento nordeste fazia aquele barulho que te dava medo, mas dessa vez não reclamou do fantasma, então não pude repetir a piada da mulher que morreu no apartamento vizinho. Creuzinha. Morreu de tédio, de excesso de igreja e falta de pica. Você sempre ria e esquecia que o medo de fantasma. Pegou o celular e riu como se estivesse sozinha. Não me mostrou, eu também não pedi pra ver. Acho bem sem graça, na verdade. Enviou um áudio a uma...
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Serasa - Ato 05

 — Tu sabe que queria um beijo, né? — Dou só se você vier. — Igual no show de Saulo… — Ali me vi apaixonada, fudida. — Deixou de ser escondido... — Tua ex ficou muita puta comigo, até hj vira a cara quando passa. — Teu ex também, mas passou. — Ele não era meu ex, saímos uma vez e ele queria casar. — Mas ficou, ué. Falei com ele e a paz reinou. — Jura que falou? — Lógico que falei, tinha que justificar.  — Não tinha nada pra falar não. — Eu sabia que ele quis investir em você.  — E você disse oq? — Que se eu não gostasse de você não tinha feito isso. Que ele era brother e não queria ficar mal. — Que mentira, bicho. — Pergunte a ele, minha filha. — Vou perguntar mesmo. Volte pro show de Saulo. — Onde a gente tava? — Reações dos ex e pretendentes. — Tá. E você ficou todo incomodado porque tinha um cara tentando me pegar. — Toda molinha pra ele.  — Tava nada, só queria ver até onde você ia aguentar. Ficou com uma cara de cu enorme. — Fiquei nada, rapá. — Puto achando q e...

Carta a meu pai

E quando a gente apostava corrida na praia e você corria no 2? E quando derramava o café no pires pra esfriar, como aprendeu com seu pai, e depois voltava pra xícara? Nunca aprendi com você, mas considerava ainda, já lá pelos meus 30, um negócio fora de série pq não sujava a toalha de mesa de minha mãe. Eu não pude chorar sua partida, não pude sofrer, nem consegui dizer direito que sentia sua falta.  Você nunca me ensinou a dizer a coisa certa, me falava pra pensar. Mas me dizia pra respeitar a filha dos outros, que não achei meu pau no lixo, ou, do seu jeito mambembe, apontava na rua qualquer desigualdade pra me ensinar a falácia do mérito. A gente não era amigo, eu sei.  Assim como você sabe que eu tentei: lembra dos e-mails, provavelmente bêbado, que escrevia pra pedir pra gente ser mais próximo? Tudo bem que você nunca respondeu.  Porra, já são seis meses e acho que talvez, não sei bem, a gente pode ter ficado até mais tempo sem se falar que isso, até.  Lembro qu...

canalha

Quando gente se conheceu você disse que eu não fazia seu tipo. Ri e falei que nem você o meu, porque não gostava de mulher cabeçuda. Lembro da sua gargalhada até hoje, e toda vez que conta essa história pra alguém, ela volta pra me animar. Também lembro quando, num dia qualquer, quando ainda usava instagram, postou o vídeo fazendo uma textura na parede, e eu respondi "lindo, agora chama um profissional pra consertar". Não era nem minha primeira provocação. Nesse dia, tava tomando um vinho e me ligou pelo Instagram, toda suja de tinta, pra me convencer, indignada, que o seu acabamento estava muito bom, que passou o dia fazendo e eu, apesar de admitir que tava mesmo ótimo, já tinha percebido que você não aceitava ser contrariada, provocando que pelo celular não dava pra ver bem o resultado, mas que não devia estar tão ruim como parecia. Era véspera de São João. Não véspera-véspera, uns dias antes. Aquele período que a gente gasta uma fortuna com fogos pros filhos pra não deixar...

laço do passarinheiro

Três da manhã, janela entreaberta, cortina tremulando com o vento frio da madrugada, a luz da cidade entrando no quarto, tímida, iluminando em frestas o teto do quarto escuro.  - Sua bunda fica muito linda à meia luz. Parece uma música de Guilherme Arantes. Levantou a cabeça do meu peito e me beijou sorrindo. Segurei a bunda com a mão direita e apertei com força comedida. Tirou o cabelo do rosto e deitou de novo, puxando o lençol até cobrir o quadril, encerrando o espetáculo cor de jambo que me entretinha. Ficou em silêncio deslizando o dedo na minha coxa, como se calculasse uma raiz de três ou o caminho mais curto pra ir de A pra B. Também fiquei calado, com medo de uma nova conversa difícil, mas era inevitável. Comecei um cafuné ajeitando o cabelo atrás da orelha diversas vezes.  - Tu me fala a verdade? - perguntou sem se mexer. - Diga. - Preciso que me fale a verdade. - Te falo, pergunte. - Tá com mais alguém? - Se estou ficando com mais alguém? - Sim. A noite tinha começad...

hipérboles e mesóclises

Te liguei duas vezes pra mentir. Planejei dizer, exaltado pelo álcool e pelo charuto que ganhei de meu primo, a quem amo verdadeiramente, e pelo maldito cantor de barzinho, que saindo do roteiro pré-estabelecido pela associação da vida boêmia, deixou de lado o repertório padrão com músicas de Djavan e a clássica Brinquedo de Papel Machê, pra tocar Pepeu Gomes. Aí a coisa desandou pra mim. Tive vontade de falar dos vários planos que nunca planejei, que tudo ia ser diferente, que errei, mas não erro mais, e que não tem problema você ter votado no Amoedo e preferir mesóclises como Michel Temer nas suas petições. Tava ensaiado lhe dizer que a vida não tá fácil com essa saudade toda, que a gente conserta se você quiser, que nem daquela vez que seu carro da Localiza quebrou e eu mandei um mecânico, mas na próxima, eu mesmo colocaria a mão na massa assistindo um vídeo do YouTube. Ia falar sobre não tá conseguindo viver, mas tô, normal, como antes de te conhecer, como durante e como depois, ma...

Serasa - Ato 04

 — Então vamos mudar os planos. — Como assim? — Putaria é putaria. — Sei separar as coisas. — Não vamo arriscar, blz? — Hoje é só putaria. — Deixe isso pra lá. Vai complicar tudo. — Tá, você que sabe. — Vou dar uma desculpa pra ir embora. — Certo. — Não fica brava. — Não to. — Gosto de você. — Você não gosta de ninguém, cara. — Eu sou doentinho, você sabe. — Só gosta de quem lhe trata mal. — Você tá me tratando mal, por isso gosto ainda mais de você. — Não tem graça. — Sério. Eu gosto de você. Por isso evitei te ver. — Que caô — Não preciso que acredite em nada. — Porque nunca disse? — Não sou bom com essas coisas....  — Resolve tua vida. — Tô resolvendo. — Não seja sacana com a menina lá. — Não sou. — Mas tava saindo quase agora pra me comer. — Voltei atrás a tempo.  — Por causa dela? — Ela é boa quando tô com ela. E terrível quando tá longe. — Você tá namorando? Seja sincero. — Não e não quero. — Então porque a gente não retoma? — Preciso resolver esse lance primeiro. —...