às vezes me flagro pensando nas tardes idílicas no seu sofá, o vento forte balançando o mensageiro do vento, seus cuidados com as plantas, mãos na terra, vasinho de água, limpando as cochonilhas no papel toalha com alguma receita caseira. eu até lembro, inclusive, como o sol entrava pela janela da sua casa e insistia em te deixar bonita, e até devia ter uma ou duas fotos dessa cena. encantado com o jeito que conversava, meio baixinho com as plantinhas, confessando que tava tentando seu melhor. lembro, vez ou outra, depois de te comer, qdo me olhava suada e perguntava se eu fazia amor ou se só tava te fodendo, e eu ria, dizia que sim, que era com amor, mas era só putaria e pra vc tb era. um dia específico: são joão da escola de meu filho, peguei estrada depois das 20hs, chuva de não ver um palmo, cheguei tardão, te peguei meio dormindo, vc tinha cortado uns queijinhos e era o que tava dentro das minhas expectativas. naquele dia o vento tava forte, tinha chuva tb, tinha o barulho inferna...
Me convidou pro carnaval, respondi que não tava no clima esse ano, que preferia ler meus livros inacabados, ressuscitar minhas plantas que morreram em novembro, testar minhas receitas salvas no instagram. Me disse que ia, que adora carnaval, pintar a cara, vestir fantasia, pular na pipoca. Eu disse vá e disse aproveite. Botou cara feia, ficou quieta, não disse nada. Imagino que queria que eu perguntasse se tava tudo bem, mas não perguntei. Ficamos no sofá, olhando pra tv com metade do display piscando pq não tive tempo nem energia pra levar no conserto. O vento nordeste fazia aquele barulho que te dava medo, mas dessa vez não reclamou do fantasma, então não pude repetir a piada da mulher que morreu no apartamento vizinho. Creuzinha. Morreu de tédio, de excesso de igreja e falta de pica. Você sempre ria e esquecia que o medo de fantasma. Pegou o celular e riu como se estivesse sozinha. Não me mostrou, eu também não pedi pra ver. Acho bem sem graça, na verdade. Enviou um áudio a uma...