Quando gente se conheceu você disse que eu não fazia seu tipo. Ri e falei que nem você o meu, porque não gostava de mulher cabeçuda. Lembro da sua gargalhada até hoje, e toda vez que conta essa história pra alguém, ela volta pra me animar. Também lembro quando, num dia qualquer, quando ainda usava instagram, postou o vídeo fazendo uma textura na parede, e eu respondi "lindo, agora chama um profissional pra consertar". Não era nem minha primeira provocação. Nesse dia, tava tomando um vinho e me ligou pelo Instagram, toda suja de tinta, pra me convencer, indignada, que o seu acabamento estava muito bom, que passou o dia fazendo e eu, apesar de admitir que tava mesmo ótimo, já tinha percebido que você não aceitava ser contrariada, provocando que pelo celular não dava pra ver bem o resultado, mas que não devia estar tão ruim como parecia. Era véspera de São João. Não véspera-véspera, uns dias antes. Aquele período que a gente gasta uma fortuna com fogos pros filhos pra não deixar...
Três da manhã, janela entreaberta, cortina tremulando com o vento frio da madrugada, a luz da cidade entrando no quarto, tímida, iluminando em frestas o teto do quarto escuro. - Sua bunda fica muito linda à meia luz. Parece uma música de Guilherme Arantes. Levantou a cabeça do meu peito e me beijou sorrindo. Segurei a bunda com a mão direita e apertei com força comedida. Tirou o cabelo do rosto e deitou de novo, puxando o lençol até cobrir o quadril, encerrando o espetáculo cor de jambo que me entretinha. Ficou em silêncio deslizando o dedo na minha coxa, como se calculasse uma raiz de três ou o caminho mais curto pra ir de A pra B. Também fiquei calado, com medo de uma nova conversa difícil, mas era inevitável. Comecei um cafuné ajeitando o cabelo atrás da orelha diversas vezes. - Tu me fala a verdade? - perguntou sem se mexer. - Diga. - Preciso que me fale a verdade. - Te falo, pergunte. - Tá com mais alguém? - Se estou ficando com mais alguém? - Sim. A noite tinha começad...