Três da manhã, janela entreaberta, cortina tremulando com o vento frio da madrugada, a luz da cidade entrando no quarto, tímida, iluminando em frestas o teto do quarto escuro. - Sua bunda fica muito linda à meia luz. Parece uma música de Guilherme Arantes. Levantou a cabeça do meu peito e me beijou sorrindo. Segurei a bunda com a mão direita e apertei com força comedida. Tirou o cabelo do rosto e deitou de novo, puxando o lençol até cobrir o quadril, encerrando o espetáculo cor de jambo que me entretinha. Ficou em silêncio deslizando o dedo na minha coxa, como se calculasse uma raiz de três ou o caminho mais curto pra ir de A pra B. Também fiquei calado, com medo de uma nova conversa difícil, mas era inevitável. Comecei um cafuné ajeitando o cabelo atrás da orelha diversas vezes. - Tu me fala a verdade? - perguntou sem se mexer. - Diga. - Preciso que me fale a verdade. - Te falo, pergunte. - Tá com mais alguém? - Se estou ficando com mais alguém? - Sim. A noite tinha começad...
Te liguei duas vezes pra mentir. Planejei dizer, exaltado pelo álcool e pelo charuto que ganhei de meu primo, a quem amo verdadeiramente, e pelo maldito cantor de barzinho, que saindo do roteiro pré-estabelecido pela associação da vida boêmia, deixou de lado o repertório padrão com músicas de Djavan e a clássica Brinquedo de Papel Machê, pra tocar Pepeu Gomes. Aí a coisa desandou pra mim. Tive vontade de falar dos vários planos que nunca planejei, que tudo ia ser diferente, que errei, mas não erro mais, e que não tem problema você ter votado no Amoedo e preferir mesóclises como Michel Temer nas suas petições. Tava ensaiado lhe dizer que a vida não tá fácil com essa saudade toda, que a gente conserta se você quiser, que nem daquela vez que seu carro da Localiza quebrou e eu mandei um mecânico, mas na próxima, eu mesmo colocaria a mão na massa assistindo um vídeo do YouTube. Ia falar sobre não tá conseguindo viver, mas tô, normal, como antes de te conhecer, como durante e como depois, ma...