E quando a gente apostava corrida na praia e você corria no 2? E quando derramava o café no pires pra esfriar, como aprendeu com seu pai, e depois voltava pra xícara? Nunca aprendi com você, mas considerava ainda, já lá pelos meus 30, um negócio fora de série pq não sujava a toalha de mesa de minha mãe. Eu não pude chorar sua partida, não pude sofrer, nem consegui dizer direito que sentia sua falta. Você nunca me ensinou a dizer a coisa certa, me falava pra pensar. Mas me dizia pra respeitar a filha dos outros, que não achei meu pau no lixo, ou, do seu jeito mambembe, apontava na rua qualquer desigualdade pra me ensinar a falácia do mérito. A gente não era amigo, eu sei. Assim como você sabe que eu tentei: lembra dos e-mails, provavelmente bêbado, que escrevia pra pedir pra gente ser mais próximo? Tudo bem que você nunca respondeu. Porra, já são seis meses e acho que talvez, não sei bem, a gente pode ter ficado até mais tempo sem se falar que isso, até. Lembro qu...
Quando gente se conheceu você disse que eu não fazia seu tipo. Ri e falei que nem você o meu, porque não gostava de mulher cabeçuda. Lembro da sua gargalhada até hoje, e toda vez que conta essa história pra alguém, ela volta pra me animar. Também lembro quando, num dia qualquer, quando ainda usava instagram, postou o vídeo fazendo uma textura na parede, e eu respondi "lindo, agora chama um profissional pra consertar". Não era nem minha primeira provocação. Nesse dia, tava tomando um vinho e me ligou pelo Instagram, toda suja de tinta, pra me convencer, indignada, que o seu acabamento estava muito bom, que passou o dia fazendo e eu, apesar de admitir que tava mesmo ótimo, já tinha percebido que você não aceitava ser contrariada, provocando que pelo celular não dava pra ver bem o resultado, mas que não devia estar tão ruim como parecia. Era véspera de São João. Não véspera-véspera, uns dias antes. Aquele período que a gente gasta uma fortuna com fogos pros filhos pra não deixar...