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cá entre nós

Lembrei daquele dia, depois da praia de maré sequinha. Chegamos em casa com uma caixinha de cerveja comprada no posto na esquina de casa. Você escolheu, e reclamou que não tava nem quente nem gelada. Coloquei no freezer e você 'Deusa do Amor' de Pepeu Gomes pra tocar, dançou sozinha entre a sala e a cozinha, com a saída de praia branca fininha e curtinha, só de biquini por baixo. Me convidou pra ir junto com os dedinhos, sorrindo sacana com as covinhas. Fiz que não ia, até você levantar o tecido acima da coxa, enquanto arriscava algum passo entre a salsa e o mambo. 

Ainda era dia, fomos pra varanda vê-lo ir.

Seus braços no meu pescoço, e eu sentindo o cheiro de sal com protetor solar misturado a algum creme de cabelo chique. Te falei que adorava o cheiro de Kolene e me mandou tomar no cu sem qualquer cerimônia. Dançamos sem dançar, um pra lá, dois pra cá, enquanto te olhava bronzeada e sorrindo de olhos miúdos. Puxei a alça do biquini pra ver a marquinha que o sol deixara, e quando disse que era de fita, riu e me beijou. A língua passeando devagar, o gosto de mar e de cerveja, apertando o corpo pra me mostrar o tamanho do tesão que tava. 

Na mesma medida respondi e levei um chega pra lá com a cara feia de mentira. Me lembrou que eu tinha jurado que não era só putaria e que me comportaria. Me acomodei no sofá, e você veio com a cara de sonsa sentar no meu colo, dizendo que o beijo tava gostoso e continuou provocando. Reclamou que o sofá arranhava, questionou se tinha dando tempo da cerveja gelar, se a gente iria sair à noite pra dançar, que queria fumar um baseado no meu colo, e que tava cheia de fome. 

Levantei pra preparar alguma coisa enquanto conversava comigo com os cotovelos no balcão da cozinha, tamborilando os dedos cheios de anéis. Me contou fofocas de desconhecidos, mudou a música pra 'Enquanto engoma a calça' pq sabe que eu gosto, dançou, me abraçou por trás e mordeu meu ombro devagar enquanto mexia a panela. Deixou claro que não iria ajudar, mas pegou uma cerveja e serviu num copo só. "pra não esquentar". Filé que tava na geladeira, um barilla esquecido no fundo do armário com os queijos da noite anterior, que você jogou na panela sem pestanejar. "É tudo queijo" e " tô só ajudando". 

Almoçamos, sentei no chão da varanda e acendi um cigarro. Trocou a música mais uma vez, sentou perto de mim, pegou na minha mão e levou o cigarro à boca, ainda suja no cantinho de molho de queijos variados, pq eu não tinha comprado guardanapo. Limpei com a ponta do polegar com firmeza, e me olhou com a melhor cara de safada que tinha, veio pertinho do meu ouvido, e definiu: "vem me comer salgadinha, vem". 

Pronto, obrigado e bom dia.


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