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Serasa - Ato 02

 — Me conta direito. Porque não quis me ver quando voltei.

— Percebi que seria difícil te ver. Tive medo de bater a bad.

— Mas não era esse o combinado, Diego? Eu voltava e a gente conversava?

— Foi, mas não rolou né?

— Foi muito rápido.

— Rápido como?

— Uns dias antes de viajar, passei o fds inteiro com você. Te pedi expressamente pra esperar.

— 15 dias antes.

— Uma semana depois, exatamente uma semana, mandou que eu aproveitasse todas as experiências. 

— Não era justo com você, né? Ia conhecer um monte de gente nova.

— Sei o que é melhor pra mim, viu? Meu pai mora em Salvador.

— Eu sei. Por isso decidi por você.

— Sou adulta.

— A gente não tava namorando, nem tinha compromisso. Não dava pra criar expectativa pra quatro meses na frente. Preferi deixar você curtir suas picas lá.

— Eu curti muito. Foi ótimo.

— Viu aí?

— Mas não teve nada com você. 

— Imagino que não. Mas me antecipei.

— Antecipou ou conheceu a menina lá ?

— Conheci depois.

— Ela sabe de mim?

— O que tem pra contar?

— Você tá falando sério?

— Sério, o que teria pra contar ?

— Que a gente tava junto.

— Mas a gente não tava.

— Eu dormia na sua casa, você me levava e buscava no plantão, conheceu meu pai quando ele veio e não tinha nada?

— Vi o jogo do Bahia com seu pai, rapaz. Tinha mais um monte de gente lá também.

— Todo mundo foi embora e vocês ficaram conservando até altas. Meu pai não queria que você fosse embora e no outro dia perguntou se você era "meu genro".

— Lembro de você e sua covinha de pijama no sofá nesse dia, olhando pra gente na varanda.

— E não tinha nada, Diego?

— Talvez até tivesse um pouco, né? Mas o lance da viagem pesou. Não ia rolar nada a distância.

— Diego.

— Eu.

— Recife não é um bairro de Maceió.

— Eu sei.

— Como não rolava se falar à distância por quatro meses?

— Deixa isso pra lá. Vamo voltar pro pessoal.

— Acende outro logo que não terminei.

— Assim vou morrer logo.

— Então acende dois.

— Certo.


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