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8.2.26

eterno retorno

Me convidou pro carnaval, respondi que não tava no clima esse ano, que preferia ler meus livros inacabados, ressuscitar minhas plantas que morreram em novembro, testar minhas receitas salvas no instagram. Me disse que ia, que adora carnaval, pintar a cara, vestir fantasia, pular na pipoca. Eu disse vá e disse aproveite. 

Botou cara feia, ficou quieta, não disse nada. Imagino que queria que eu perguntasse se tava tudo bem, mas não perguntei. Ficamos no sofá, olhando pra tv com metade do display piscando pq não tive tempo nem energia pra levar no conserto. O vento nordeste fazia aquele barulho que te dava medo, mas dessa vez não reclamou do fantasma, então não pude repetir a piada da mulher que morreu no apartamento vizinho. Creuzinha. Morreu de tédio, de excesso de igreja e falta de pica. Você sempre ria e esquecia que o medo de fantasma.

Pegou o celular e riu como se estivesse sozinha. Não me mostrou, eu também não pedi pra ver. Acho bem sem graça, na verdade. Enviou um áudio a uma amiga dizendo que tava tudo certo e que já tinha comprado tudo, mas não despertou minha curiosidade. Também não pediu massagem nos pés e nas batatinhas doloridas, não reclamou do excesso de trabalho, nem fez troça com os cabideiros da minha sala que, às vezes, servem de cadeiras pra mesa de jantar. 

A gente manteve uma distância segura, eu ainda sem provocar, ela sem me dizer sim nem que não. 

Perguntei se tava com fome e respondeu que não sabia. Considerei que devia estar, então pedi pra dois. Escolhi sem perguntar e coloquei os pratos mais bonitos na mesa, pedi pra Alexa tocar Leo Middea no modo aleatório pra ver se você dançava e cantava, mas só balançou os pezinhos em cima da mesa. Levantou e disse que ia tomar um banho. Não respondi de birra. Ouvi o barulho do chuveiro, a água caindo contínua, e ri. Admito que senti falta de ouvir o desafino no banho, geralmente forró das antigas ou músicas em inglês dos anos 80. Saiu, vestiu o próprio pijama no lugar de minha camisa do crossfit 2023 e aí liguei o alerta.

Tentei todo meu repertório de provocações, mas perdi pros vídeos curtos de superação (la vida es corta...). Deixei quieto, fui pro escritório e ela pro quarto. Soube porque ouvi o apito do ar-condicionado. Contei meia hora e cinco e fui lá medir o clima. Inventei um processo pica que perdi, ela me olhou complacente, colocou o celular em cima da mesinha ao lado da cama e me deu atenção. Deu pause na série que não tava nem assistindo, estendeu os braços e fez 'vem' com as mãozinhas, resignada. Me deu um abraço gostoso, jogou as pernas em cima de mim ainda em silêncio. Fiquei uns quinze minutos até cansar, e dei dois tapinhas na lateral da bunda pra me soltar. 

Se afastou mas não me soltou, olhou com os olhos de cumaru e dramatizou que tinha ficado chateada porque eu não queria carnaval. Que já tinha casa, que já tinha piscina e cozinha do lado de fora pra gente fazer ceviche e vinagrete de polvo. Que namoro a gente faz as coisas juntos, e que nem tinha convidado um casal pq sabe que eu não gosto. 

Falei que não ia mesmo assim. Que tinha minhas plantas, meus livros, minhas receitas, e meus traumas pra lidar no feriado. 

Me olhou nos olhos e me disse 'assim não quero mais'

"Paciência."

Trocou de roupa, pôs outra parte na sacola, enrolou o carregador no braço como um carretel e em cinco ou seis minutos, estava de pé na porta do elevador. Acompanhei até a porta, mas nem me olhou de lado, continuou encarando a porta de alumínio do elevador, impaciente.

"não vai comer antes de ir?"

Silêncio. 

"tem vinho na geladeira"

Silêncio

"ok, avise quando chegar"

Fechei a porta antes do elevador chegar e passei a chave. Toca a campainha: 

"Diga"

"Zero consideração por mim, velho"

"Isso não é verdade e você sabe"

"Nada te deixa satisfeito"

"Deixa, Veca. Um carnaval em paz me deixa muito satisfeito"

"Faça um esforço, pô"

"Não nesse carnaval"

"E você quer que eu fique em casa o carnaval inteiro"?

"Você pode ir pra onde quiser, meu amor"

"Quer ficar sozinho? Tudo certo"

"Tudo certo tb você curtir seu carnaval"

"Mas eu queria que meu namorado fosse comigo"

"Mas ele não vai, meu amor"

"Meus amigos vão também"

"Aí, você não vai tá sozinha"

"Para de deboche, por favor"

"Não tô de deboche."

"Tá sim"

"Veca, você não vai ganhar essa no grito"

"Leva os livros, as plantas já morreram, Diego"

"Morreram pra você, kkkk"

"Não vai mesmo?"

"Em nenhuma hipótese."

"Você não vai na esquina por mim, né?"

"E eu mandei você pra esquina?"

" A gente faz assim, ó: voltamos na terça e descansamos em casa até quarta de cinzas."

"Terça que horas?"

"Depois do almoço"

"Tarde"

"11:00hs então"

"Saindo ou chegando?"

"Saindo"

"Tarde"

"Chegando 1 da tarde aqui"

"E tu vai me deixar quieto?"

"Deixo"

"Não vai ficar querendo putaria?"

"Putaria eu vou"

"Vamos negociar, entra."

"Não vou te dar o cu não, nem comece"

"Jesus"

"Obsessão do caralho"

"Lembre de Creuzinha..."

"Vamos negociar sem isso"

"Vamos deixar em aberto"

"Oxe, bote o seu na mesa"

"Laêle"

"Sério. Vamo ajustar pra voltar terça"

"Vamos, entra. A comida tá chegando"

"Tá bem"

"Veca, antes de entrar"

"Diz"

"Da próxima vez que disser que vai embora, vá mesmo, tá?"

"Você quer que eu vá?"

"Nunca quis, mas se disser que vai, vá"

"Tem isso agora?"

"Sempre teve, da próxima vez não vou abrir a porta e a gente vai perder uma parada massa. Então vamos evitar essas coisas."

"Você tá certo dessa vez"

"Sempre"

"Até parece"

"Entra, bota minha camiseta."

"Você pediu oq?"

"Comida chinesa, pq?"

"Pediu onde?"

"Xian"

"Hummmm..."

"Porque?"

"Morta de fome"

"Eu percebi"

"Tá combinado o carnaval? De sexta a terça?"

"Chegando 1 da tarde aqui, certo?"

"A gente vai negociar"

"Nosso acerto foi esse"

"No final da tarde, amor. A gente vai querer beber"

"Porra"

"Vou te dar um negócio quando a gente chegar"

"Terça no final da tarde por mim tá ótimo."

 

Pronto, obrigado e bom dia.

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