— Faz um tempinho que a gente não conversa né?
— Conversar mesmo acho que só antes de sua viagem. Nem perguntei como foi a experiência lá.
— Vixe, outro mundo, viu?
— Verdade que lá parece o centro de Maceió?
— Muito. kkkk. Eles tem até o ceguinho do pandeiro, mas ele canta David Bowie pra cima. Te mandei o vídeo até, você não viu?
— Oxe, mandou onde?
— No Instagram.
— Porra! Acho que não vi.
— Devo ter ainda. Vou te mostrar.
— Achei que era piada.
— Né igual o ceguinho do centro? Mas com gaita e violão.
— Pois mande pra mim. Fiquei fã.
— Mando.
— Conte mais. Fez muita amizade por lá?
— Muitas. Principalmente com a turma de fora. Um amigo de lá vem pra cá na semana santa. Vamos lá pra Salvador ver meus pais e minha sobrinha.
— Também tô pensando em ir pra lá. Tava olhando passagem hoje.
— Eita que massa! Vamos tentar fazer alguma coisa lá, né?
— Ainda não tá certo não.
— Sim, no plano das ideias a gente já coloca na programação.
— Joia, vamos amadurecer.
— Vai com quem?
— Chamei aquela menina que te falei.
— A de Pernambuco?
— Isso.
— Hum. Ela não confirmou ainda?
— Não porque tem os compromissos dela, né?
— Não é feriado pra ela?
— Setor privado é pica.
— Eita, é mesmo.
— Parece que o trabalho lá também é meio caótico.
— Mas ela quer ir?
— Boa pergunta.
— A gente sai junto lá.
— Não gosto de gringo.
— Isso é preconceito, viu? Nem conhece o cara.
— Eu sei. Mas não gosto.
— Sei que é brincadeira sua.
— Talvez eu não goste do seu gringo especificamente.
— Você é doido, cara. Bipolar total.
— Oxe, agora isso?
— Deixe pra lá.
— Diga aí seu diagnóstico, rapaz.
— Saí daqui achando que a gente tava numa vibe massa. Depois você me diz que não queria me limitar e falou que a gente podia conversar na volta. Voltei e me deu um monte de desculpa pra gente não se encontrar. Tive que deixar seu presente na portaria, velho. Consideração na pqp.
— Vibe é foda.
— O que é que tem?
— Detesto essa expressão, desculpa.
— Vai te lascar, Diego.
— Eu sou doentinho, você sabe.
— Voltei cheia de saudade, querendo te contar tudo de lá. Mas aprendi.
— Eu sei, desculpa. Te falei que conheci uma pessoa.
— Falou mas não explicou.
— Explicar oq?
— Deixe pra lá.
— Sim, você queria conversar pessoalmente e eu sei até onde dou pé.
— Então foi medo de não aguentar me ver?
— Deixe disso, vá.
— Ou achou que ia te pegar à força?
— Bem capaz. Você é sacaninha mesmo.
— Você é estranho, Diego.
— Banana ficou preta rapidão, hein? E esse sushi que a galera pediu, hein? Horrível. O da Europa era melhor?
— Nem fiz questão. Experimentei só o que não conhecia ainda.
— Espero que não tenha comido nada indiano.
— Comi muito! Ma-ra-vi-lho-so.
— Tenho preconceito também.
— Você sabe que a Inglaterra e Índia são países diferentes, né?
— Mantenho minhas ressalvas.
— Nada a ver. Outro padrão.
— Salmonella europeia.
— Lembrei que você tem estômago de princesa. Lembra depois do show?
— Porra, se lembro. Rezei muito aquele dia.
— Eu ri demais, mas com respeito.
— Por isso que estou sempre atento às normas de higiene.
— Quem perde é você.
— Vamos voltar pro pessoal. Vim aqui fumar e já terminei faz tempo.
— Acende outro aí. Preciso te falar umas coisas.
— Oq é agora?
— O que ainda não pude falar e posso colocar a culpa na vodka.
— Jesus.
— Posso começar?
— Tô cheio de problema já, cara.
— Foda-se, viu? Acende aí.
— Porra, 'a vibe' já pesou.
— Deixe de ser otário, menino.
— Desculpa.
— Acende.
— Tá bem.
---- fim do ato 01 ----
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