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Serasa - Ato 01


 — Faz um tempinho que a gente não conversa né?

—  Conversar mesmo acho que só antes de sua viagem. Nem perguntei como foi a experiência lá.

— Vixe, outro mundo, viu?

— Verdade que lá parece o centro de Maceió?

— Muito. kkkk. Eles tem até o ceguinho do pandeiro, mas ele canta David Bowie pra cima. Te mandei o vídeo até, você não viu?

— Oxe, mandou onde?

— No Instagram.

— Porra! Acho que não vi.

— Devo ter ainda. Vou te mostrar.

— Achei que era piada.

— Né igual o ceguinho do centro? Mas com gaita e violão.

— Pois mande pra mim. Fiquei fã.

— Mando.

— Conte mais. Fez muita amizade por lá?

— Muitas. Principalmente com a turma de fora. Um amigo de lá vem pra cá na semana santa. Vamos lá pra Salvador ver meus pais e minha sobrinha.

— Também tô pensando em ir pra lá. Tava olhando passagem hoje.

— Eita que massa! Vamos tentar fazer alguma coisa lá, né?

— Ainda não tá certo não.

— Sim, no plano das ideias a gente já coloca na programação.

— Joia, vamos amadurecer.

— Vai com quem?

— Chamei aquela menina que te falei.

— A de Pernambuco?

— Isso.

— Hum. Ela não confirmou ainda?

— Não porque tem os compromissos dela, né?

— Não é feriado pra ela?

— Setor privado é pica.

— Eita, é mesmo.

— Parece que o trabalho lá também é meio caótico.

— Mas ela quer ir?

— Boa pergunta. 

— A gente sai junto lá.

— Não gosto de gringo.

— Isso é preconceito, viu? Nem conhece o cara.

— Eu sei. Mas não gosto.

— Sei que é brincadeira sua.

— Talvez eu não goste do seu gringo especificamente.

— Você é doido, cara. Bipolar total. 

— Oxe, agora isso?

— Deixe pra lá.

— Diga aí seu diagnóstico, rapaz.

— Saí daqui achando que a gente tava numa vibe massa. Depois você me diz que não queria me limitar e falou que a gente podia conversar na volta. Voltei e me deu um monte de desculpa pra gente não se encontrar. Tive que deixar seu presente na portaria, velho. Consideração na pqp.

— Vibe é foda.

— O que é que tem?

— Detesto essa expressão, desculpa.

— Vai te lascar, Diego.

— Eu sou doentinho, você sabe.

— Voltei cheia de saudade, querendo te contar tudo de lá. Mas aprendi.

— Eu sei, desculpa. Te falei que conheci uma pessoa. 

— Falou mas não explicou.

— Explicar oq?

— Deixe pra lá.

— Sim, você queria conversar pessoalmente e eu sei até onde dou pé.

— Então foi medo de não aguentar me ver?

— Deixe disso, vá.

— Ou achou que ia te pegar à força?

— Bem capaz. Você é sacaninha mesmo.

— Você é estranho, Diego.

— Banana ficou preta rapidão, hein? E esse sushi que a galera pediu, hein? Horrível. O da Europa era melhor?

— Nem fiz questão. Experimentei só o que não conhecia ainda.

— Espero que não tenha comido nada indiano.

— Comi muito! Ma-ra-vi-lho-so.

— Tenho preconceito também.

— Você sabe que a Inglaterra e Índia são países diferentes, né?

— Mantenho minhas ressalvas.

— Nada a ver. Outro padrão.

— Salmonella europeia. 

— Lembrei que você tem estômago de princesa. Lembra depois do show?

— Porra, se lembro. Rezei muito aquele dia.

— Eu ri demais, mas com respeito.

— Por isso que estou sempre atento às normas de higiene.

— Quem perde é você.

— Vamos voltar pro pessoal. Vim aqui fumar e já terminei faz tempo.

— Acende outro aí. Preciso te falar umas coisas.

— Oq é agora?

— O que ainda não pude falar e posso colocar a culpa na vodka.

— Jesus.

— Posso começar?

— Tô cheio de problema já, cara.

— Foda-se, viu? Acende aí.

— Porra, 'a vibe' já pesou.

— Deixe de ser otário, menino.

— Desculpa.

— Acende.

— Tá bem.


---- fim do ato 01 ----





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