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canalha

Quando gente se conheceu você disse que eu não fazia seu tipo. Ri e falei que nem você o meu, porque não gostava de mulher cabeçuda. Lembro da sua gargalhada até hoje, e toda vez que conta essa história pra alguém, ela volta pra me animar. Também lembro quando, num dia qualquer, quando ainda usava instagram, postou o vídeo fazendo uma textura na parede, e eu respondi "lindo, agora chama um profissional pra consertar". Não era nem minha primeira provocação.

Nesse dia, tava tomando um vinho e me ligou pelo Instagram, toda suja de tinta, pra me convencer, indignada, que o seu acabamento estava muito bom, que passou o dia fazendo e eu, apesar de admitir que tava mesmo ótimo, já tinha percebido que você não aceitava ser contrariada, provocando que pelo celular não dava pra ver bem o resultado, mas que não devia estar tão ruim como parecia.

Era véspera de São João. Não véspera-véspera, uns dias antes. Aquele período que a gente gasta uma fortuna com fogos pros filhos pra não deixar praquela correria da verdadeira véspera. Lembro porque já tinha gente na minha rua explodindo-os, creio que para ensaiar.

"Vem ver aqui então. Duvido"

Acho que era pra lá de 21:00h e achei até que era brincadeira. Respondi que me mandasse a localização que eu iria mesmo conferir, que passei anos vivendo em reforma, que sabia tudo e blá-blá-blá. Tudo mentira.

"Vem então pra você ver se não tá 'bão'" 

Não sei se foi culpa do vinho, do seu, no caso, que me deu a oportunidade perfeita, mas dirigi e segui a localização. Estacionei debaixo de uma árvore baixinha na frente do seu prédio, ao lado de um contêiner de reformas, falei com o porteiro eletrônico e toda a sua impessoalidade, que te ligou e me autorizou a subir pro 6º andar. 

Abriu a porta toda suja de tinta: 

"Nem tive tempo de tomar banho ainda". E seguiu direto me mostrar a parede.

"Aqui eu coloquei fita crepe pra não sujar o rodapé, mas sujou um pouquinho ali no canto.", "Aquele lado ali eu errei mas só vou consertar amanhã pq to morta", "Deu muito trabalho pra primeira vez e eu achei o resultado ótimo"

Fiquei em silêncio ouvindo as explicações e as desculpas por um tempo. Acho que eu tava encarando a parede com a mão no queixo, fingindo que estava vendo todas as imperfeições, até que você parou de falar, me olhou séria, meio resignada, e perguntou insegura: 

"Tá muito merda, né?"

Comecei a rir e disse que na verdade estava mesmo ótimo. Que deixasse pra ver de manhã se tem algum ajuste, mas que tinha ficado muito bom mesmo. 

Lembro que você suspirou. Aliviada. Deve ter acreditado que de fato, eu sabia do que tava falando. Fiquei te olhando discretamente, com a camisa suja de tinta, o cabelo amarrado pra cima, os pés descalços e uma tornozeleira dourada fininha. 

"Você arrasou mesmo, viu?"

"Não te disse? Você duvidou de mim"

"Pelo celular não deu pra ver"

"Agora viu que sou foda"

"Fodíssima"

"Se tiver alguma parede na sua casa, me chama. Dou desconto."

"Fechado"

"Quer uma água?"

"Não, já tô indo já"

"Já?"

"Vim conferir seu trabalho. Está aprovado".

"Verdade mesmo?"

"Não foi pra isso que você me chamou?"

"Sim, mas você pode esperar eu tomar banho e pedir alguma coisa pra gente comer"

"Quer não sair pra comer?"

"To morta, Diego. Vamos pedir aqui e conversar"

"O que você quer comer?"

" Escolhe"

"Não sei o que você come"

"Como tudo menos coisa com bacon"

"Topa um sushi?"

"Muito"

Passou a vassoura e juntou tudo num cantinho. Disse que tirava amanhã e eu ri. Perguntei se queria ajuda, mas recusou. A vassoura ficou lá também. Seguiu pro banho e fiquei aguardando no sofá encarando um vídeo pausado no Youtube. A casa cheia de plantas, uns três espelhos, um abajur diferente que até hoje não decidi se é bonito ou feio, um tapete bom de fuder, uma foto de família e uma sua com roupa de frio e ares cosmopolitas. Ouvi quando a porta do banheiro abriu e gritou pra eu fechar os olhos. 

"É o que menina?"

"Fecha o olho que esqueci a toalha"

"Vou sair da sua casa e você pega, ok?"

"Só precisa fechar o olho, menino"

Saí do apartamento até que você gritasse "Pronto". Voltei pro sofá, pro abajur e pro tapete. Voltou alguns minutos depois com uma blusa grande, até o joelho, que não dava pra ver se tava de short por baixo ou só de calcinha. Sentou do meu lado com o secador e uma escova de cabelo. 

"preciso secar meu cabelo pra dormir por causa da minha rinite, ta?"

E conversávamos quando o secador permitia. Me contou da vida, do breve namoro com um cara, que gostava de ler coisas de astrologia e que tinha medo de macumba. Falei que não precisava ter medo porque só tava ali com ela por causa da macumba. Até hoje lembro como você olhou assustada por alguns segundos, com esses olhos lindos cor de mel, cor de baunilha, cor de cumaru, e logo depois soltou um "idiota", ligando o secador de cabelo novamente.

"É muito cabelo aí, né?"

"Muito, quer uma mudinha?"

"Eu gosto de ser careca"

"Eu também gosto"

"De ser careca?"

"De você careca. Tem cara de canalha"

"Que absurdo"

"Tô sendo sincera"

"Isso é bom ou ruim?"

"Como assim bom ou ruim?"

"Na hipótese de eu querer alguma coisa com você"

"Ai ai"

"Fala"

"Depende pro que eu vou te querer"

"Vixe"

"Respondido?"

"Respondido."

Terminou de secar o cabelo, enrolou o fio com uma das mãos e colocou ao lado da mesinha do abajur. Me olhou rapidinho e sorriu. Sorri de volta e mantive os olhos nela.

"Diego, Diego"

"Diga, vida"

"Não me olhe assim não"

"Te olhando pra confirmar se você é mesmo o pintor mais bonito que eu já vi. Mas acho que vc é segundo lugar"

"(Gargalhada gostosíssima) E quem é o primeiro?"

"Sabiá, que pintou minha casa.

"Tu pegou Sabiá também, Diego?"

" Nem o primeiro nem o segundo lugar. Mas tô cheio de esperança."

" Ai ai, viu?"

Nesse momento, jogou os pés no meu colo e pediu uma massagem. Percorri os pés, amassando os dedinhos, deslizando as mãos até o tornozelo, fingindo que não via a reação dela, com o cotovelo apoiado no braço do sofá, olhinhos fechados e um sorriso de alívio. 

O interfone tocou lá pra umas 23:30h e desci pra buscar o sushi. Quando voltei, tinha colocado dois lugares na mesa de centro que ficava em cima daquele tapete. Um do lado do outro. Ainda em pé com a entrega nas mãos, enquanto fechava a porta do apartamento, ela veio na minha direção, tirou a sacola e colocou na mesa de jantar. 

"Acho melhor você me beijar antes do sushi"

Fogos.

Por isso lembrei que era véspera de São João.

Pronto, Obrigado e bom dia.






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