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15.1.26

Confins

Você só era uma cabeçuda gostosa com a boca grande. Boca grande tanto literalmente quanto pela total ausência de desconforto pra fazer cessar incômodos. Na primeira vez, te achei pedante com seus conceitos freudianos misturados com a filosofia que, depois, soube que se interessou por influência paterna. Mas na época, vi que analisava as conversas de todo mundo na mesa com esses olhos lindos cor de cumaru e seu deboche que no início, confundiria com muxoxo.

A gente não conversou muito de primeira por conta desses detalhes preliminares. Depois, soube que me achou observador, bem humorado e que apesar de não fazer seu tipo, tinha elogiado meu cheiro pra pessoa que me contou, e que só revelarei no leito de morte. Prometi que não contaria, e você, com essa bocarra, falou pra um monte de mulher no banheiro e por isso nem imagina quem tenha sido. Isso deve ser foda pra sua mania de controlar cada aspecto de sua vida, mas não deixa de ser engraçado.

Engraçado também que no meio da conversa generalizada, começaram a falar de religião. Fiquei calado pois não é, pra mim, um local de conforto. Você percebeu e me perguntou discretamente se eu era ateu e respondi, não sem deboche, que acreditava no Deus de Spinoza, pra ouvir você, no meio do burburinho, dizer que adorava o conceito de coisa única universal como expressão da própria realidade.

Relembro que depois dessa frase nem consegui elaborar uma resposta à altura. Tomei um gole de cerveja no copo americano e ri olhando pra baixo, até levantar a cabeça e ver sua cara de muxoxo, pra logo em seguida mandar o golpe fatal:


"tu usa mesmo essas conversas pra pegar mulher?"

"estava em fase de teste, mas acabei de tirar do repertório"

"tirou porque?"

"vc quebrou minha guia"


Você riu, virou o corpo pro lado cheia de desdém, com o mesmo vestido verde que ficou no chão do meu quarto no réveillon, e me ignorou por uns bons vinte minutos. De cá, vi quando uma desconhecida veio no seu ouvido, disse alguma coisa e te entregou um papel. Você leu a cantada e permaneceu sem esboçar reação.


"Qual é a melhor: o Deus de Spinoza ou essa que veio no papel?"

" Prefiro o Deus de Spinoza mas você não elaborou"

" Estava em teste, mas posso continuar agora"

" Então continue, por favor"


Daí em diante sequer voltamos no assunto. Tive a sorte, apesar da minha guia quebrada, da menina que tava do meu lado sair mais cedo e ter cedido o lugar vazio que encurtou a distância. Era uma terça-feira, e as pessoas foram saindo aos poucos pra logo restarmos nós dois. Te perguntei se queria ir pra outro lugar, não sem ressaltar que não tava convidando pra minha casa, e você só me disse que na minha casa estava ótimo pra você, mas poderíamos começar mudando pra uma mesa menor.

Me contou todo o caminho de Minas Gerais e eu da Bahia. Conversamos até o garçom perguntar se ainda quereríamos algo da cozinha. Me ofereci pra te deixar em casa, mas você preferiu ir de Uber, não sem concordar que compartilhasse a localização e avisasse que chegou bem. Você sorriu arredia, e disse que não tava acostumada com essas coisas. Entramos na madrugada por mensagens e naquela noite não tive sono. 

Na sexta-feira aceitou ir comigo num samba de velhos, te tirei pra dançar, me embriaguei com seu perfume e com os sinaizinhos na sua bochecha. Te disse que queria contá-los. Dividimos cervejas em copos americanos, e quando fui cumprimentar um conhecido, te vi olhando pra mim de pé, com um sorriso meio sacana, que me fez correr de volta pra não perder o timing


"vi que tava me olhando e fiquei curioso"

"se viu, tava me olhando também"

"se consegui deixar de te olhar por algum momento, peço desculpas"

"você é muito canalha, viu?"

"voltei correndo pra saber o motivo. me diga"

"motivo de q?"

"deixe"

"tava pensando qual a hora do beijo"

"você tá atrasada. era terça passada"

" e agora?"

" calculamos em juros compostos"

"onde que assina?"


Estava hoje relembrando da primeira temporada. A gente se afastou por um tempo, mas nesses últimos meses, você me deu seu melhor e admito que não retribuí à altura. E que gargalhava com suas figurinhas da gatinha com frio que queria uma pica, ou quando chegava lá em casa depois que meu filho dormia, e me forçava a assistir 'doramas' com pipoca ou pão de queijo, original, que trazia sempre pra gente. Também adorava quando você ia no meu trabalho, me chamava pra almoçar no shopping e seguia pro motel que tem lá pertinho me dizendo "é rapidinho, te devolvo já pro seu chefe". Achei massa também quando, no último dia das crianças, a gente foi pra rua fechada junto e você me acompanhou enquanto Joca aprendia a andar de bicicleta sem rodinhas, comprou tanto picolé pra ele, à minha revelia, que ele colocou seu nome na oração daquela e da próxima noite, junto ao agradecimento pelos Legos e nos apelos ao 'esfírito santo'. 

E te agradeço pela folga que pediu no trabalho, por ter viajado vinte e nove horas de Confins pra Ilhéus só pra não me deixar sozinho na minha hora mais difícil. E que não teve problema você ter chegado após a cerimônia, que ainda podemos processar a empresa aérea, e que só seu abraço, seu empenho e sua companhia me fizeram ter certeza. 

Que amo sua presença, amo você cantando e dançando na minha banda de primos do Natal, amo sua empatia, seu jeito elegante de se vestir, de jogar todas as minhas carteiras de cigarro fora, e se eu estiver fumando, destruí-los, e também de ficar no meu pé pra não assistir os episódios novos de Pluribus sem você. Amo quando cozinho algo novo, e na primeira garfada, levanta, me beija, e com esse sotaque maravilhoso me pede em casamento ou pra te engravidar. Amei você ter topado comer acarajé comigo todos os dias, amo sua cara de safada, aquela calcinha que são só duas fitinhas e só puxo de ladinho ou quando me fala no ouvido que não tá usando nenhuma. Amo te comer sobre seu tapete da sala, perto do seu abajur horroroso, quando me escreve dizendo que tá com fome e quer que eu faça só um filezinho, prometendo que vai cortar a cebola mas chega dizendo que fez a unha e sobra tudo pra mim. Amo seu cuscuz cru com ovo queimado, sua atenção com minha família, quando suas pernas tremem e me apertam, o cheiro do seu cabelo e do seu suor, sua ocupação recente no meu closet me dizendo que é reforma urbana e redução das desigualdades, mas principalmente quando dorme em minha casa e o mundo parece acordar cantando.

Obrigado pela segunda temporada, obrigado pelos últimos meses, por seu amor, e me comprometo, assim, de forma antecipada, que já nessa terceira temporada, com o perdão do Spoiler, o vilão vai virar tudo o que a mocinha cabeçuda merece.


Pronto, Obrigado e Bom dia.


5 [sarkarmós]: Confins Você só era uma cabeçuda gostosa com a boca grande. Boca grande tanto literalmente quanto pela total ausência de desconforto pra fazer cessa...

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