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Carta a meu pai

E quando a gente apostava corrida na praia e você corria no 2? E quando derramava o café no pires pra esfriar, como aprendeu com seu pai, e depois voltava pra xícara? Nunca aprendi com você, mas considerava ainda, já lá pelos meus 30, um negócio fora de série pq não sujava a toalha de mesa de minha mãe.

Eu não pude chorar sua partida, não pude sofrer, nem consegui dizer direito que sentia sua falta. 

Você nunca me ensinou a dizer a coisa certa, me falava pra pensar. Mas me dizia pra respeitar a filha dos outros, que não achei meu pau no lixo, ou, do seu jeito mambembe, apontava na rua qualquer desigualdade pra me ensinar a falácia do mérito.

A gente não era amigo, eu sei. 

Assim como você sabe que eu tentei: lembra dos e-mails, provavelmente bêbado, que escrevia pra pedir pra gente ser mais próximo? Tudo bem que você nunca respondeu. 

Porra, já são seis meses e acho que talvez, não sei bem, a gente pode ter ficado até mais tempo sem se falar que isso, até. 

Lembro que às vezes você deixava de falar comigo, eu nunca soube muito bem seus motivos, mas como eu te amava e admirava, só doía. Mas era um dor condescendente, pai. Uma dor de saber que alguma coisa eu fiz de errado, algum leão que errei a mira e não matei no dia, alguma linha que cruzei e não podia, como são todas as linhas desse tipo. Aprendi nesse silêncio a me curar sozinho. E, velho, nunca deixei de te amar não, viu? Sabia que era o que você tinha pra me dar. Foi o que te deram e você sobreviveu.

E olha: já experimentei alguma sinergia (apesar de odiar o mau uso da palavra) com um monte de gente. Mas a gente se entendia nas piadas, nas citações, nos olhares. Sei que nunca disse, mas eu lia seus livros pra ver se a gente se aproximava. Li Camus, Kafka, Zola. Sei lá, vai que você entrava no assunto e eu batia no ponto, que dizia, "porra, negão". Tentei ser seu amigo, virei um comunista safado.

A vida tá continuando, pai.

Seu neto anda me falando que você tá bem quando to triste - o que me assusta um pouco diante da minha falta de espiritualidade. Você tb sabe que tive um avô espetacular, e, queria muito você com ele, ensinando futebol, suas piadas inteligentes, o sarcasmo, a amar sem demonstrar. Juro que puxava pra mim a parte do afeto, mas queria você no futebol, e para lixar móveis que, recentemente, o Youtube ensinou a reformar. Diga aí.

Pai, difícil, foi.

Depois de vinte anos sozinho, entendi que o amor tem um monte de maneira maluca de existir. A sua não era só se preocupar como eu achava. Era guardar num potinho meu primeiro dente, minhas primeiras cartas de amor pra você e pra minha mãe, uns desenhos meio toscos com motosserras, já que sempre fui subversivo, e hoje entendo, completamente, pq tenho uma pasta cheia de histórias de Joca do  "capitão batatinha".

E eu te amo por isso. 

Por ter dado seu melhor sem conseguir falar de amor. Não te ensinaram, eu sei. Então fica registrado que darei seu melhor misturado com o meu. Também meio mambembe, cheio de onomatopeias, de figuras de linguagem, de abraços, livros e orações que não acredito.

Na sua despedida, tinha um monte de gente que te amava. Teu amigo passou a noite sentado numa cadeira de recepção. Lembra que eu falava que você era Zeca Urubu do Pica-Pau pq ia pra todos os velórios? Você sempre me respondia: "nessas horas que a gente vê quem é amigo".

Sempre achei lindo, lindo, e te juro: você era muito amado. Por seus filhos, seus sobrinhos, tanto os que ensinou a nadar tanto pelos que não. Os que ensinou a dirigir e os que não. Nas festas da família, ninguém mais olha os meninos na piscina. Cada um cuide do seu. Falta você, sempre.

Todo dia, nalgum momento, eu sonho com você descascando laranjas, em silêncio, e me dando uma bandinha. Geralmente azeda, só pra rir. A gente não conversa, só vê um filme mentiroso na TV e um cara cai em pé depois de saltar de um avião sem paraquedas:

"Cuiuda da porra", você dizia. 

Eu concordava, mas entendia a licença poética do roteirista.

Pra terminar, a gente ainda tá meio fudido no Brasil, cheio de fascista e de homem de bem, mas enfim: a véia fez noventa anos e toda vez, me lembra que, apesar de não ser filho dela, ninguém cuidou dela melhor que você. E aposto que ninguém duvida. 

Teu flamengo tá uma merda, Neymar vai pra Copa por lobby, tô lendo um livro que disseram ser o novo "Guerra e Paz" de Tolstói, mas até a página que eu tô, chega nem perto. Fazendo o melhor pra meu filho, continuo calçando o sapato do outro, e, vivendo sempre sem querer parecer o que não sou.

Te amo. 

Espero que eu esteja errado, e no céu a gente se encontre um dia pra falar que Joca, apesar de me dizer que todo dia faz entre, 5 e 1.200 gols na escola, sendo goleiro, o que é bastante surpreendente, puxou a você no futebol. Ele é fã de Cristiano Ronaldo, torce pro Bahia, pro CSA, pro CRB pro Flamengo, pro Botafogo, e pro Fluminense. Me assusta que ele ache conveniente torcer tb pro Vitória. Graças a Deus ele não conhece rivalidade.

Sinto sua falta. Pra mim, você tá vivo. Só se mudou pro meu coração. É o bom de ser ateu pq é mais perto que daqui pro céu.


*roubo o título do primeiro livro que meu pai me emprestou, aos 14, "Carta a meu pai, de Franz Kafka".

* Na Bahia, a expressão "cuiuda" (muitas vezes escrita ou falada como culhuda) é usada popularmente como sinônimo de mentira, lorota, estória ou fofoca.







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