"não era pra você ter ido" Foi o que me disse na ligação às 04:28 da manhã de uma segunda-feira de setembro. Ri e achei que era brincadeira, até que ficou com um sorriso sem graça e colocou a palma da mão na boca com os dedos virados pra bochecha. O cabelo preto ainda molhado caiu na direção oposta, inclinando pra frente e cobrindo parte do rosto. "coloca o cabelo atrás da orelha, não to te vendo" Piscou os olhos longamente e suspirou. Tirou a mão do rosto e ajeitou o cabelo enquanto se curvava pra trás na cadeira. Não minto que não entendi o que tinha rolado. Ficamos em silêncio por um tempo, ela olhando pro lado como se não quisesse continuar a conversa. Espreguiçou na minha frente e tive a impressão que diria alguma coisa, mas não disse, nem perguntei prontamente. Achei que deveria dizer alguma coisa, mudar o assunto, quebrar o gelo, fazer uma piada, mas só saiu a obviedade: "que horas são aí?" "quatro horas a mais" "vou contar nos dedos...